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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Das touradas – contradizendo os seus defensores

Argumento 1 – da tourada como tradição:

O argumento em defesa das touradas porque são uma tradição enraizada no povo, não é um argumento válido nem aceitável. Para isso teríamos que aceitar como boas todas as atividades que por terem sido exercidas ao longo de um período de tempo entraram na tradição dos povos em geral ou de um povo em particular.
Depois, teríamos que negar a mudança como fator inerente à condição humana, ou seja, teríamos que aceitar como verdade que uma determinada coisa depois de ser feita de certa maneira, será sempre executada ad eternum dessa maneira. como se vê esta asserção é falsa, se o homem não fosse por excelência um ser dado à mudança, hoje ainda vivíamos em cavernas e andaríamos nus ou quanto muito, usando umas decrépitas peles de animais cobrindo-nos o corpo e suas vergonhas.
E porque não encaixa a tradição como argumento de defesa das touradas? Porque nem todas as tradições são boas!
No mundo clássico, Grécia e Roma, e mesmo no Renascimento, era comum, aceite e tradicional a prática da pedofilia, vamos aos compêndios de história e não raro encontramos descrições pormenorizadas de como os filósofos gregos, aqueles que sustentam todo o nosso pensamento, os senhores romanos, ou os bispos da igreja e os grandes escultores e pintores renascentistas, se entregavam alegremente a práticas sexuais com os seus discípulos de mais tenra idade. Essas práticas são hoje aceites como naturais e normais? Não. Pelo contrário, um adulto que tenha práticas sexuais com menores, não só é condenado a pesadas penas pelos tribunais como ainda terá que enfrentar a indiferença e o olvido por parte dos seus semelhantes.
Outro exemplo, ainda hoje, nalguns países, ou tribos, africanos é prática corrente, exatamente por ser tradicional, a excisão do clítoris quando as jovens mulheres atingem a idade fértil, prática que quando não causa a morte da mulher logo ali, durante o ato, lhe vai proporcionar uma vida inteira de dor e privada de sentir prazer sexual. Devemos acatar esta prática e condenar milhares de mulheres ao sofrimento? É claro que não!
Mas se uma atividade não deverá ser continuada pelo facto de ser tradicional, como fazer se também é ponto consensual que há tradições boas e que nos movem no dispêndio de todo e qualquer esforço para não as deixar fenecer?
É uma questão de bom senso, de gosto, de juízos de valor, de moral, de ética...

Como todos estes valores atrás enunciados contém uma grande dose de subjetividade, o que é bom para mim pode não ser para ti, teremos inevitavelmente que ter em conta o impacto que determinada prática tem na opinião pública.
Pelo que só poderão ser aceites como boas práticas tradicionais aquelas que não levantem contestação da parte de um grupo significativo de cidadãos, o que não é claramente o caso das touradas, hoje em dia já não se trata de uma ou duas dúzias de maluquinhos que são contra, atualmente a contestação a esta prática abrange milhares de cidadãos, independentemente das suas convicções políticas religiosas, culturais, etc.
Querem exemplos de práticas tradicionais boas e as quais urge dar continuidade e manter?Os bordados, a cerâmica, os enchidos e o queijo de Nisa.
Os dois primeiros, tendem a desaparecer, os dois últimos demonstram vitalidade mas produzidos de modo industrial originando produtos que de tradicional tem apenas o nome.
Poderão aqui os defensores das touradas alegar, mas porque é que os bordados são defensáveis e as touradas não? Como você gosta de bordados, eu gosto de touradas.
Reparem que não é bem a mesma coisa, enquanto contra os bordados apenas conseguirá argumentar com o gosto, as touradas ferem sentimentos, torturam animais, ofendem outras culturas, religiões, sentimentos morais ou éticos de terceiros.
Caso me não tenha feito entender, agradeço o contraditório, acredito que é da discussão que pode nascer a luz.

Argumento 2 – da tourada como economia mola de desenvolvimento do interior

Este é de todos o argumento mais badalado pelos defensores das touradas mas é também o mais perigoso. Perigoso porque pode e leva os mais incautos ao engano e a arrostarem com dívidas, por vezes elevadas. Por uma razão muito simples, o espetáculo tauromáquico, por si mesmo, não dá lucro, salvo raras exceções dá elevados prejuízos.
A não ser assim, como se explica que praticamente todas as praças de touros do país sejam equipamentos públicos?
Exatamente porque a sua construção manutenção e exploração dão prejuízo, caso dessem lucro estariam nas mãos de investidores privados. Investidores que cavalgando a galope o seu empreendedorismo não deixariam escapar para o setor público os ganhos que poderiam ser apenas deles.

Não conheço a situação da praça de touros de Vila Franca de Xira nem da Moita, mas tirando o Campo Pequeno, não conheço mais nenhuma praça que seja posse de privados e mesmo o Campo Pequeno sobrevive graças ao centro comercial construído nas suas galerias e vê acontecerem lá mais espetáculos musicais que corridas de touros.
Ou seja, as touradas só são lucrativas quando acompanhadas por outras atividades paralelas, no interior costumam ser os comes e bebes a cobrirem o saldo negativo da bilheteira da tourada. ainda assim, na minha terra natal, organizaram há bem pouco tempo uma tourada na qual apenas os cavaleiros e salvo erro o ganadeiro cobraram caché e nem com o dinheiro do bufete se safaram. tiveram forte prejuízo.
Mesmo verificando-se prejuízo financeiro da tourada, ainda se pode clamar no desenvolvimento do moribundo comércio local pela grande afluência de forasteiros no dia da corrida. Também não me parece que seja chão digno de ser trilhado, não vão ser duas dúzias de enchidos e queijos, meia dúzia de peças de olaria e duas ou três de bordados que virá revitalizar o comércio local. Arranjem, se fazem favor outras e novas ideias.
Concluindo: a tourada é desde sempre uma atividade subsidiária do Estado, da Monarquia primeiro, é aliás a principal demonstração do marialvismo da fidalguia, quase desaparece na 1ª República e ressurge como esteio do estado-novo salazarista, sempre com o Estado como patrono e mecenas, agora não será diferente.
Em termos económicos teremos pois na tourada um espetáculo que findo o último passodoble entoado pela banda musical, terminadas as cortesias e as lides, ao deixar de se ouvir o último estralejar do foguete largado pelo João Adriano, acaba a festança, ficam as contas por acertar e essas já sabemos quem é sempre o pagador, nem mais nem menos que o zé povinho, ou seja, todos nós.

Argumento 3 – dos touros de lide como meio de preservar de forma sustentada e ecológica o meio ambiente:
E eis-nos chegados ao argumento que parece decisivo em favor das touradas e até dá para os seus mais acérrimos defensores fazerem figura de bons rapazes, que o são certamente, dizem eles: “o touro bravo só subsiste porque há touradas, assim, as touradas permitem a preservação de mais uma espécie e como o touro bravo exige um determinado meio ambiente para sobreviver, ao mantê-lo, estamos também a contribuir um planeta mais ecológico”.
Falso!
O touro bravo existe muito antes de existirem touradas e espero, continuará para muito depois delas. O touro bravo não existe em função da lide, esta sim existe em função do touro bravo.
Esta espécie é facilmente convertível à alimentação humana como demonstra anualmente a feira gastronómica promovida pelo município de Mora, o touro bravo pode entrar na ementa humana; se passar por uma praça e for lidado, com os produtos químicos que lhes enfiam no bestunto e com as infeções ganhas na corrida é que só serve para o crematório.
A criação do touro bravo, por si só, não é rentável, por isso os ganadeiros não se dedicam apenas a esse tipo de criação, os que são aficionados criam-nos para a lide mas como complemento de uma outra atividade, agrícola ou empresarial.
Numa exploração agrícola, respeitadora do meio ambiente, diversificada e ecologicamente sustentável, cabe perfeitamente a criação do touro bravo como interveniente da cadeia alimentar humana.

Ainda há dias vi na televisão uma herdade, salvo erro da família Brito Pais, algures entre Évora e Beja, as minhas desculpas mas a memória já não é a dos tempos de juventude, na qual coexistiam culturas de regadio, culturas de sequeiro, vinha, criação de touros bravos e de porco preto alentejano, tudo cultivado e criado segundo modelos da agricultura biológica. Esta herdade não existe assim desde sempre, foi a iniciativa, no caso empresarial privada que a reconverteu numa herdade moderna e ecologicamente sustentada. Poderão dizer-me, está bem mas a família Brito Pais (desculpem-me se não for pois não me recordo, mas o nome é meramente ilustrativo) cria os touros porque estes vão ser lidados nas corridas de touros. Sim, fazem isso se não tiverem outra alternativa para colocar no mercado a carne dos animais, pois se a tiverem eles deixarão de se preocupar com as touradas.
Quanto ao meio ambiente do touro bravo, no caso, constituído por sobreiro e pequenos arbustos é exatamente o mesmo do porco preto pelo que não corre perigo. Pelo menos enquanto não se considerar que o eucalipto tem as mesmas condições para ser cultivado que as árvores autóctones.
Essa dos eucaliptos é que foi um par de bandarilhas mal colocado.

Concluindo: não sendo a tourada uma tradição arreigada ao povo português, antes uma barbaridade rejeitada por muitos; não sendo as touradas uma atividade economicamente viável, sem apoios de dinheiros públicos; sendo possível manter o ambiente natural e o touro bravo sem a existência de touradas; não há motivos para que as mesmas se continuem a realizar, para lá é claro, do prazer pessoal que alguns retiram daquele “espetáculo” triste.

Nota: Este texto foi enviado pelo autor ao “Jornal “da câmara” de Nisa” como resposta a um texto de Marco Oliveira aí publicado e em sequência à apresentação e aprovação pelos deputados municipais do P.S. da proposta de considerar as touradas “património cultural imorredoiro”, neste concelho. O jornal não publicou o texto e ao autor, disse nada.

Fonte: Blog do Jornal de Nisa


por Jaime Crespo, Tolosa
via Nisa sem Touradas

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Argumentos: Touradas II [Touro Bravo]

Texto exemplarmente completo e detalhado sobre todas as questões que se levantam nos debates sobre tourada, incluindo a ideia de que as touradas evitam a extinção do touro bravo:
"Não vamos entrar pelos argumentos, porque aí, lamento, mas espalham-se os aficionados. O único argumento legítimo e verdadeiro que têm, [os aficionados], é o de a tourada ser um espectáculo legalizado e, como tal, terem todo o direito a participar. Ponto final porque acabam aí os argumentos válidos.
O sr. que fala em adrenalina ou no sangramento para alívio do touro obviamente não entende nada de biologia, de fisiologia ou de comportamento animal; percebe apenas da sua adrenalina quando assiste a espectáculos de violência. Essa dos sangramento para alívio dos humores foi uma prática médica muito em voga na Idade Média mas abandonada posteriormente. 
O que está na base do movimento anti-touradas não é claramente uma questão de gostos. Os gostos não se discutem. O pior é quando os nossos gostos colidem com a vida ou a integridade física de outros. Gostar é diferente de amar ou respeitar. É por demais evidente que os pedófilos gostam crianças; mas é uma maneira de gostar que passa pela exploração dos menores e pela negação dos seus direitos. Os que vivem da indústria tauromáquica cuidam dos touros porque vivem da sua exploração; se eles não lhes trouxessem rendimento, duvido que tratassem deles em regime pro-bono. Mas fica o desafio: vamos ver quantos aficionados amam verdadeiramente a raça taurina e se dispõem a cuidar dos exemplares existentes quando acabarem as touradas. Como fazem, por exemplo, as associações de animais por este país fora, que abnegadamente se dedicam a cuidar de cães e gatos abandonados. 
Outra falácia comum para fugir à discussão séria sobre ética é comparar a vida em liberdade que precede a tortura na arena à vida dos animais em criação intensiva. É claro que a criação intensiva é uma ignomínia, mas não invalida que as corridas de touros não constituam também uma ignomínia. Aqui podemos cair na questão de comparar coisas parvas como campos de concentração, por exemplo: seria melhor acabar em Auschwitz ou em Treblinka? É melhor morrer à nascença ou aos 4 anos? Com uma facada no peito ou afogado? Tudo isto são questões absolutamente laterais e cujo único objectivo é desviar a atenção de uma pergunta muito simples: 
É eticamente aceitável criar um animal para o massacrar publicamente e ganhar dinheiro assim?

Se respondermos sim, abrimos a porta para as lutas de cães, de galos, e até de indivíduos que, por grande carência financeira ou mesmo falta de neurónios, se disponham a entrar num recinto e participar numa luta de morte em jeito de espectáculo. Há quem goste de ver. E se vamos pela quantidade de público a assistir, nada batia os linchamentos públicos nos pelourinhos. Mas isso também acabou; houve uma altura em que passámos a considerar isso um espectáculo incorrecto e imoral. 
Vi agora que ainda há mais uns pseudo-argumentos: comparar injecções ou vacinas com as bandarilhas. Parece uma brincadeira comparar uma agulha fina com o objectivo de tratar uma doença ou evitar outra - no caso das vacinas - com a introdução de 9cm em metal grosso, cujos 3cm finais são em forma de arpão para não sair e continuar a rasgar os músculos e os ligamentos durante a lide. Das duas, três: ou está a brincar, ou não usa o raciocínio ou quer enganar os outros. 
Depois vem mais uma das bandeiras frequentemente agitadas: a da extinção do touro bravo. Como muitos dos que lutam contra a existência das touradas são pro-ambientalistas, este parece ser um argumento forte. Parece, mas obviamente não é. O que os ecologistas defendem é a não interferência nos ecossistemas porque há equilíbrios frágeis cuja totalidade das varáveis são desconhecidas e as rupturas imprevisíveis. Não tem nada a ver com o touro bravo. A extinção do touro bravo teria o mesmo impacto ambiental que a extinção do caniche. Podemos lamentá-la, claro, por razões sentimentais, mas não afectam em nada os ecossistemas. E se falamos de ambiente, as herdades onde se faz a criação extensiva de touros podiam dar lugar a montados de sobro e plantação de oliveiras. Temos um clima e um solo excelentes para a produção de azeite e cortiça e não somos autónomos na questão do azeite, o que nos traria ganhos financeiros e mais independência económica. Os toureiros, se quisessem reconverter-se, podiam ir para a apanha da azeitona com as suas calcinhas justas e a jaqueta de lantejoulas; não seria prático mas dava uma nota de cor aos campos nessa altura do ano."
Cristina d'Eça Leal

Fonte:  Texto escrito por uma Amiga e publicado em 2009 no Fórum MATP - Movimento Anti-Touradas de Portugal

domingo, 5 de agosto de 2012

Extinção do touro de lide caso se proíbam as touradas - Falso!

Um dos argumentos mais recorrentes dos aficionados é que se as touradas forem proibidas o touro de lide extingue-se.

Nada mais falso.

De acordo com o Ministério do Ambiente espanhol, só um escasso número de animais é destinado a espectáculos tauromáquicos.
Segundo dados do mesmo ministério, o número de reses bravas inscritas é de 275.748 exemplares. Anualmente cerca de 15.000 touros são usados em espectáculos tauromáquicos que têm lugar em todo o território espanhol; sejam em corridas de touros ou em espectáculos populares, tipo largadas, etc.

De acordo com este ministério, os ganadeiros poderiam reconduzir o seu negócio para que estes animais se destinassem somente ao consumo. Uma opção comercial que já é explorada na actualidade, mas que os ganadeiros não consideram tão rentável como a venda dos animais para espectáculos tauromáquicos.

Por tal motivo, o governo espanhol, descarta a possibilidade de criar reservas naturais para proteger o touro de lide, caso as touradas venham a ser proibidas, já que a exploração comercial dos touros continuaria a ser rentável e seriam os próprios ganadeiros que salvaguardariam a sua existência.

O ministério assegura ainda que existe a possibilidade de criar reservas naturais para acolher raças que sejam classificadas em perigo de extinção, mas estas nunca albergariam o touro de lide, porque este animal mesmo não se destinando a touradas, não se extinguirá.

Estes são dados e estudos do Ministério do Ambiente espanhol, não foram inventados pelos anti-touradas.

Cai pois por terra, o estafado argumento, da extinção dos touros de lide caso as touradas sejam proibidas.


Fonte:  El Gobierno asegura que sin lidia el toro bravo no se extinguirá
2010
"El departamento que dirige Elena Espinosa considera que, del total del censo de reses bravas, "sólo un escaso número de animales se dedica a los espectáculos taurinos". Medio Ambiente señala que el número de reses bravas en la actualidad es de 275.748 ejemplares inscritos. Cada año, se utilizan alrededor de 15.000 toros en los distintos festejos taurinos que tienen lugar en toda España, ya sean corridas en plazas o sueltas de vaquillas en los pueblos.

El ministerio asegura que aunque "existe la posibilidad de reservas naturales para albergar razas clasificadas en peligro de extinción" en ningún caso sería el caso del toro de lidia, "puesto que las razas de interés productivo se crían en explotaciones ganaderas con otras consideraciones y circunstancias". Aun así, el toro de lidia ya es hoy por hoy una estirpe protegida en el catálogo oficial como raza autóctona, circunstancia que obliga a su fomento y protección por parte de las administraciones."

domingo, 1 de julho de 2012

A tourada, razão da existência do touro bravo?


Hugo Evangelista – Biólogo
Abril 2009

«Um dos argumentos frequentemente mencionados em debates sobre touradas é o da importância em manter a espécie do touro bravo. Os proprietários das ganadarias mantêm os touros nos seus terrenos, não porque tenham uma grande consciência ecológica e ambiental, mas porque daí retiram dinheiro. Muito dinheiro. No dia em que os touros deixarem de ser vendidos a 2000 euros cada (sem contar com chorudos subsídios europeus), cerca de 2600 animais por ano (DN, 2007), os proprietários das ganadarias rapidamente se esquecerão de qualquer importância ecológica ou da biodiversidade do touro bravo. É esta a principal, senão a única, verdadeira razão para a continuação das touradas no nosso país - um forte interesse económico de um pequeno grupo de pessoas. É claro que, para desculpar o indesculpável, atiram para os olhos o argumento de se querer proteger uma espécie. Mas nem o touro bravo é uma espécie, porque é sim uma raça ou subespécie, nem a extinção desta raça é irremediável e obrigatória quando as touradas acabarem. A extinção desta raça não é irremediável nem obrigatória porque nada impede a criação parques naturais, santuários ou outras soluções viáveis para a conservação destes animais. O que não pode nunca acontecer é justificarmos a crueldade para com uma animal para o poder "conservar". Cabe na cabeça de alguém que a conservação do panda passe por lhe espetar bandarilhas no dorso? Que o repovoamento do lince ibérico na Península Ibérica passe por lhe cortar as orelhas e rabo? A conservação de espécies / raças, não é argumento para continuar as touradas. É um papel que tem de ser assumido pelos portugueses e pelo Estado e não por empresas que da exploração desses animais retiram avultados lucros. Existe outro argumento frequente, que é o da conservação dos ecossistemas, mas este é ainda mais frágil. É que estamos a falar de um animal totalmente domesticado, que só existe por selecção artificial de características de interesse, que no caso do touro bravo é essencialmente a bravura. Ou seja, o touro bravo não existe no campo por estar em total equilíbrio e conjugação com a Natureza. Está lá porque os ganadeiros assim o fizeram e ali o colocaram. Isto significa que um touro bravo é, no mínimo, um elemento supérfluo na manutenção dos montados portugueses. Voltamos então ao único argumento de peso para a manutenção das touradas. Os interesses económicos. Interesses esses que vivem de um espectáculo que promove a ideia de que existe justiça e igualdade em colocar um animal num local estranho e com regras definidas pelos humanos; que coloca animais numa luta que estes não desejam mas são forçados a entrar; que vive da diabolização da imagem de um herbívoro territorial e faz disso um espectáculo de entretenimento. 
É vital rejeitarmos esta visão subversiva da realidade. É preciso dizer que a tourada não é uma fatalidade e que podemos acabar com uma das formas mais indignas e desumanas de tratamento dos animais da actualidade. O caso muito recente de Viana do Castelo dá-nos força e entusiasmo. É vital agora a maioria silenciosa que se opõe às touradas mostrar o seu descontentamento, de forma pró-activa e com um único compromisso: o respeito pelos animais e pela Natureza.»

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Touradas = Conservação das Espécies?

Em 2008 a Acção Animal distribuiu mais de 500 panfletos pelo fim das touradas em Portugal e pelo respeito aos milhares de touros que são anualmente torturados em nome do entretenimento e da tradição.
O Pedro, uma das pessoas que recebeu o nosso panfleto, disse que estava indeciso sobre a sua posição em relação às touradas, devido à sua importância em manter a espécie do touro bravo.


Esclarecemo-lo na altura mas ficam aqui os argumentos que certamente serão úteis para outras pessoas.
Os proprietários das ganadarias mantêm os touros nos seus terrenos, não porque tenham uma grande consciência ecológica e ambiental, mas porque daí retiram dinheiro. Muito dinheiro. No dia em que os touros deixarem de ser vendidos a 2000 euros cada, cerca de 2600 animais por ano (DN, 2007), os proprietários das ganadarias rapidamente se esquecerão de qualquer importância ecológica ou da biodiversidade do touro bravo.
É esta a principal, senão a única, verdadeira razão para a continuação das touradas no nosso país – interesse económico.
É claro que, para desculpar o indesculpável, atiram para os olhos o facto de se querer proteger uma espécie. Mas nem o touro bravo é uma espécie nem a extinção desta raça é irremediável e obrigatória quando as touradas acabarem.
Nada impede o Estado português de criar parques naturais ou outras soluções viáveis para a conservação destes animais.
O que não pode nunca acontecer é justificarmos o sofrimento e morte de um ser com a capacidade de sofrer para o poder “conservar”.
A conservação do panda passa por espetar bandarilhas no seu dorso? A recolocação do lince ibérico na Península Ibérica passa por o pegarmos de caras?
A conservação de espécies / raças, não é argumento para continuar a haver touradas. É um papel que tem de ser assumido pelos portugueses e pelo Estado e não por empresas que da exploração desses animais retiram avultados lucros.
Existe outro argumento frequente, que é o da conservação dos ecossistemas, mas este é ainda mais frágil. É que estamos a falar de um animal totalmente domesticado, que só existe por selecção artificial de características de interesse. Isto significa que um touro bravo é totalmente substituível senão supérfluo na manutenção dos montados portugueses.
Voltamos então ao único argumento de peso para a manutenção das touradas. Os interesses económicos. Interesses esses que vivem de um espectáculo que promove a ideia de que existe justiça e igualdade em colocar um animal num local estranho e com regras definidas pelos humanos; que coloca animais numa luta que estes não desejam entrar (mas são forçados a isso); que vive da diabolização da imagem de um herbívoro territorial e faz disso um espectáculo de entretenimento.
É vital rejeitarmos esta visão subvertida da realidade. É preciso dizer que a tourada não é uma fatalidade e que podemos acabar com uma das formas mais indignas e desumanas de tratamento dos animais da actualidade. É incontornável assumirmos este como um dos principais objectivos do movimento de defesa e de direitos dos animais.


Hugo Evangelista – Biólogo